No dia 03 de dezembro de 2011, em um acidente rodoviário no interior da Bahia, morreram 34 trabalhadores cortadores de cana e outros 11 foram feridos. Retornavam para suas casas e famílias em Buíque (PE), após meses de trabalho na safra de cana na região de Jateí (MS). Assim como os dois acidentes (ocorridos em São Paulo nos dias 27-11 e 02-12-2011) que mataram cinco técnicos que trabalhavam para a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), o acidente com os canavieiros mereceu umas poucas linhas na imprensa e o mesmo padrão de análise equivocada. No caso da CPTM, que diabos faziam os “malucos” técnicos experientes andando no leito da linha férrea e, no caso do acidente com os cortadores, a suspeita era de que o ônibus que os transportava estava irregular, apesar do acidente ter sido motivado por caminhão desgovernado. Para ambos os acidentes não surgiram, até o momento, análises mais abrangentes sobre as suas causas. Mais relevante ainda foi a demonstrada falta de indignação das representações de trabalhadores, de partidos políticos e demais instituições de representação da sociedade, nos dois casos.
Aproveitamos para chamar atenção para um antigo problema que envolve os cortadores de cana, especialmente os migrantes, que não vem recebendo a atenção necessária, num país com avanços tecnológicos e em crescimento econômico, mais acentuado nas regiões norte e nordeste, fonte da maioria dos cortadores migrantes, para um tratamento adequado à suas vidas.
Nosso grupo de pesquisadores teve a oportunidade de realizar dois grandes estudos (com apoio do InCor, do CNPq e da Fapesp), com grupos distintos de cortadores de cana (migrantes e não migrantes), no estado de São Paulo que, além de confirmar dados já conhecidos, como - trabalho com esforço físico excessivo, pois como ganham por produção, chegam a cortar 7 a 14 toneladas de cana por dia para receber entre R$700,00 a R$1500,00/mês, desferindo cerca de quatro mil golpes com facão e semelhante número de flexão e torção do tronco, levando à doenças osteomusculares precoces- mostraram que os trabalhadores estão submetidos a outros riscos como trabalhar em ritmo intenso sob calor excessivo e expostos a poluentes liberados pela cana queimada previamente ao corte manual.
Verificamos que os migrantes, além do drama de ficarem longe de suas famílias durante oito meses por ano e sofrerem variada segregação nas pequenas cidades onde vão trabalhar, apresentam, durante o período da safra, à semelhança dos cortadores não migrantes que avaliamos, redução das defesas pulmonares e da função pulmonar, elevação da pressão arterial, elevada excreção urinária de um marcador de substâncias cancerígenas liberadas pela queima da cana, aumento da secreção de cortisol (principal hormônio relacionado ao estresse), alterações oculares, presença de alterações no DNA avaliadas em células da mucosa oral, aumento de riscos cardiovasculares graves, presença de marcadores de lesão muscular decorrente do esforço físico excessivo e sinais de distúrbios relacionados à desidratação devido à perda de água e sais pelo suor, com repercussões crônicas ainda por esclarecer.
Acreditamos que estes achados ajudam a explicar eventos que têm sido relatados com cortadores e alertar autoridades, empresas e representantes dos trabalhadores para a busca de soluções alternativas para este tipo de trabalho.
O trabalho no corte de cana, que data de séculos em nosso país, persiste como uma das atividades de trabalho mais penosas, sendo agravada no caso dos migrantes pelo esgarçamento de relações familiares.
É preciso e possível a elaboração de um programa nacional, com envolvimento da União, dos estados e municípios, que crie alternativas de trabalho e renda para evitar a busca de trabalho longe dos locais de moradia permanente que os afasta de suas famílias. Além disso, ao mesmo deve se modernizar a forma de cortar cana e que se criem programas que dêem alternativas dignas de trabalho aos atuais cortadores, evitando-se o desemprego.
Uma parte da produção de açúcar e álcool, que abastece o mercado interno e ajuda na balança comercial brasileira, poderia ser reservada para um programa de reciclagem e geração de emprego e renda a esses trabalhadores, de maneira a reduzir-se a migração forçada em busca de trabalho e a necessidade de continuar com um trabalho penoso que abrevia e tira a vida dos trabalhadores.
Cremos que o Brasil, alçado à condição de 6ª economia mundial deve buscar solução para uma histórica dívida para com esta categoria que há séculos contribui para a economia brasileira, mas ao custo de sua saúde e da sua vida, levando ao enriquecimento de poucos.
São Paulo 28 de Dezembro de 2012
- Ubiratan de Paula Santos – Médico da Divisão de Pneumologia do InCor-HCFMUSP
- Alfésio Luis Ferreira Braga- Pesquisador do LAPAE, Depto de Patologia da FMUSP
- Ana Paula de Melo Loureiro: Profa Dra do Departamento de Análises Clínicas e Toxicológicas da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP
- Cristiane Maria Galvão- Médica do Trabalho da Fundacentro
- Dirce MT Zanetta- Professora Titular do Depto de Epidemiologia da FSP-USP
- Gustavo Prado- Pneumologista pesquisador da Divisão de Pneumologia do InCor
- Juliana Nery- professora da Escola de Enfermagem da USP
- Kazuo Kawano Nagamine- Prof. de Educação Física, Adjunto do Depto Epidemiologia e Saúde Coletiva da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto
- Luiz Alberto A Pereira- Pesquisador do LAPAE, Depto de Patologia da FMUSP
- Maria Silvia de Moraes –Doutora e Docente do Departamento de Epidemiologia e Saúde Coletiva da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto
- Mário Terra Filho- Professor Associado da FMUSP
- Monique Matsuda - Bióloga, doutora pela FMUSP, pesquisadora científico do Laboratório de Investigação em Oftalmologia, Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo
- Naomi Kondo- Professora associada de Fisioterapia da FMUSP
- Priscila Novaes- Médica Oftalmologista do Hospital das Clínicas da FMUSP
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